ÍCARO MORENO – DA ENGENHARIA REATIVA À ENGENHARIA ESTRUTURADA DE SOLUÇÕES

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Que Engenharia o Brasil precisa construir para os próximos 20 anos?

Durante muito tempo, a Engenharia foi essencialmente treinada para resolver problemas. Uma estrutura apresenta uma falha, uma cidade enfrenta uma enchente, uma estrada precisa ser recuperada, uma obra encontra uma situação imprevista: o engenheiro é chamado para encontrar uma solução.

Essa capacidade de reagir continuará sendo indispensável. Problemas continuarão surgindo, emergências continuarão acontecendo e obras continuarão exigindo experiência, adaptação e capacidade de decisão.

Mas o mundo está mudando numa velocidade que nos obriga a dar um passo além. Precisamos evoluir de uma cultura predominantemente reativa para uma Engenharia capaz de antecipar, integrar, estruturar e transformar problemas em soluções.

Um mundo em metamorfose

Não estamos vivendo apenas uma evolução tecnológica. Estamos atravessando uma mudança de paradigma.

A inteligência artificial avança rapidamente. O BIM transforma a maneira como concebemos, projetamos e gerenciamos empreendimentos. Os gêmeos digitais começam a permitir a representação virtual de ativos e sistemas reais. Automação, robótica, sensores e grandes volumes de dados modificam processos produtivos e a própria tomada de decisão.

Ao mesmo tempo, a Engenharia precisa responder às mudanças climáticas, aos eventos extremos, às novas demandas de mobilidade, ao envelhecimento da infraestrutura, às restrições ambientais, à transição energética, à escassez de recursos e às crescentes exigências de eficiência, transparência e governança.

O mundo tornou-se mais complexo, veloz, digital, interconectado e imprevisível. E isso modifica uma das perguntas fundamentais da nossa profissão.

Durante muito tempo perguntamos:

Como vamos resolver este problema?

Agora precisamos acrescentar outras perguntas:

Como podemos antecipá-lo? Como podemos evitá-lo? Como podemos estruturar uma solução antes que ele aconteça?

A aceleração tecnológica e o futuro do engenheiro

Essa discussão ganha outra dimensão quando observamos as ideias de Ray Kurzweil sobre a aceleração tecnológica.

Sua tese central é que a tecnologia não evolui de maneira simplesmente linear. O avanço tecnológico tende a acelerar, tornando cada vez mais difícil imaginar as próximas décadas apenas com as referências do presente.

Kurzweil aponta 2029 como um marco para sistemas de inteligência artificial com desempenho comparável ao humano em ampla gama de tarefas e situa por volta de 2045 aquilo que denomina Singularidade: um período em que a aceleração da inteligência não biológica tornaria especialmente difícil prever os acontecimentos posteriores.

Independentemente de essas previsões se realizarem exatamente nesses prazos, existe uma questão fundamental para a Engenharia: não podemos preparar os profissionais dos próximos 20 anos pensando apenas nas ferramentas disponíveis hoje.

Precisaremos de uma Engenharia capaz de aprender continuamente e incorporar tecnologias e sistemas que ainda nem conhecemos.

E surge aqui um aparente paradoxo. Quanto maior a capacidade das máquinas para calcular, processar dados, desenhar, simular, compatibilizar projetos e executar tarefas repetitivas, maior poderá ser o valor das capacidades essencialmente humanas do engenheiro: definir corretamente o problema, formular as perguntas certas, estabelecer premissas, compreender o contexto, avaliar riscos, comparar alternativas, tomar decisões, integrar conhecimentos e assumir responsabilidade pelas escolhas realizadas.

A pergunta, portanto, talvez não seja mais:

“A inteligência artificial substituirá o engenheiro?”

A pergunta mais importante é:

“Que engenheiro será necessário quando a inteligência artificial estiver integrada ao trabalho da Engenharia?”

Engenharia, desenvolvimento e soberania

Existe ainda outra dimensão dessa transformação.

Durante séculos, soberania esteve associada principalmente a território, fronteiras, recursos naturais e capacidade militar. Esses elementos permanecem fundamentais, mas já não são suficientes.

No século XXI, a capacidade de uma nação produzir conhecimento, dominar tecnologias críticas, desenvolver inovação, proteger dados estratégicos, possuir infraestrutura tecnológica e formar pessoas qualificadas tornou-se também elemento de sua autonomia.

Nesse processo, a Engenharia ocupa posição central.

Podemos representar uma cadeia de desenvolvimento da seguinte forma:

Educação → Ciência → Tecnologia → Inovação → Soberania.

Mas falta nessa sequência um elo fundamental: Engenharia.

É a Engenharia que transforma conhecimento em aplicação, ciência em tecnologia, tecnologia em infraestrutura e infraestrutura em desenvolvimento.

Por isso, a capacidade nacional de solucionar problemas constitui uma dimensão importante da soberania contemporânea. Isso não significa que um país precise produzir tudo sozinho. Significa possuir capacidade própria para decidir, desenvolver, adaptar e dominar aquilo que considera estratégico.

Os limites de uma Engenharia predominantemente reativa

A Engenharia Reativa não é uma Engenharia ruim. Ao contrário: ela foi fundamental para o desenvolvimento das sociedades e continuará sendo necessária.

Ela possui enormes qualidades: rapidez de resposta, experiência prática, capacidade de adaptação, conhecimento acumulado e competência para enfrentar situações inesperadas.

O problema surge quando reagir deixa de ser uma capacidade e passa a ser o principal método de planejamento.

Nas obras públicas, por exemplo, conhecemos bem esse ciclo.

Uma decisão é tomada sem planejamento adequado. O projeto é insuficiente. A contratação não consegue traduzir corretamente o que precisa ser executado. O problema aparece no campo. Surge o aditivo, depois o atraso, o aumento de custos e o conflito. E novamente somos obrigados a reagir.

Forma-se o ciclo:

problema → reação → correção → novo problema → nova reação.

Muitas vezes, portanto, aquilo que aparece no canteiro não nasceu no canteiro.

Nasceu muito antes.

Por isso, precisamos compreender definitivamente que a obra não começa no canteiro. A obra começa na decisão, no planejamento e no projeto.

A Engenharia Estruturada de Soluções

É nesse contexto que proponho avançarmos para aquilo que denomino Engenharia Estruturada de Soluções.

Não se trata de substituir a Engenharia tradicional, mas de ampliá-la.

É uma Engenharia que:

entende o problema → antecipa riscos → integra conhecimentos → estrutura alternativas → avalia consequências → escolhe soluções → planeja → executa → monitora → aprende.

Essa Engenharia pode ser estruturada em cinco pilares fundamentais.

O primeiro é a antecipação. Não basta perguntar como resolver determinado problema. Precisamos também perguntar como evitá-lo.

O segundo é a integração. A complexidade contemporânea tornou insuficientes as soluções isoladas. Engenharia, Economia, Direito, Meio Ambiente, Tecnologia, Gestão e Sociedade precisam dialogar desde a concepção das soluções.

O terceiro é a estruturação. Antes de executar, precisamos compreender o problema, produzir diagnóstico, estudar alternativas, desenvolver projetos, analisar riscos, custos, cronogramas e formas de contratação.

O quarto pilar é a inteligência. Dados, inteligência artificial, BIM, simulações, automação e gêmeos digitais devem ampliar nossa capacidade de compreender, prever e decidir.

Podemos resumir essa relação em uma frase:

A IA calcula. O engenheiro decide.

O quinto pilar é a visão de ciclo de vida. A Engenharia não pode terminar quando entregamos a obra. Precisamos pensar concepção, implantação, operação, manutenção e renovação. A obra deixa de ser apenas um objeto e passa a ser compreendida como parte de um sistema ao longo de toda a sua vida útil.

A Engenharia dos próximos 20 anos

Podemos imaginar três grandes movimentos transformando nossa profissão.

O primeiro será uma Engenharia aumentada, combinando inteligência artificial, BIM, dados e simulações para ampliar a capacidade humana de decisão.

O segundo será uma Engenharia preditiva, utilizando gêmeos digitais, sensores, drones, robótica, automação e análise permanente de dados para identificar problemas antes que eles se manifestem fisicamente.

O terceiro será uma Engenharia sistêmica, na qual uma obra será cada vez menos compreendida como objeto isolado e cada vez mais como parte de um sistema sociotécnico conectado às pessoas, às cidades, à energia, à mobilidade, ao meio ambiente, aos dados e à economia.

Nesse cenário, talvez a competência mais importante seja a capacidade de adaptação permanente.

Não sabemos exatamente quais tecnologias dominarão a Engenharia em 2045 ou 2055. Mas sabemos que o profissional do futuro precisará aprender continuamente, integrar conhecimentos, interpretar sistemas complexos, antecipar riscos, tomar decisões e assumir responsabilidades.

E o Brasil?

O Brasil não enfrenta apenas um problema de disponibilidade de recursos. Muitas vezes enfrentamos dificuldades para transformar recursos em projetos, projetos em obras, obras em ativos e ativos em desenvolvimento.

Precisamos, portanto, promover algumas mudanças de cultura:

do menor preço para a melhor solução e o melhor resultado; da obra entendida apenas como contrato para a obra entendida como sistema; do projeto visto como documento para o projeto utilizado como instrumento de decisão; da fiscalização predominantemente posterior para uma governança preventiva; do conhecimento fragmentado para a inteligência integrada; e da dependência tecnológica para a capacidade nacional de desenvolver soluções.

Porque a obra mais cara não é necessariamente aquela que custa mais. Muitas vezes, é aquela que não entrega à sociedade o resultado que deveria entregar.

Pensar melhor antes de construir

A Engenharia dos próximos 20 anos não será apenas responsável por construir pontes, estradas, portos, cidades, sistemas de energia, saneamento e infraestrutura digital.

Ela será cada vez mais chamada a ajudar a sociedade a decidir o que precisa ser construído, por que precisa ser construído, como deve ser construído e como deverá funcionar ao longo de sua vida.

Quanto mais a máquina fizer o cálculo, mais valor terá quem souber formular a pergunta.

Quanto mais a máquina gerar alternativas, mais valor terá quem souber escolher.

Quanto mais a máquina executar tarefas, mais importante será quem conseguir compreender o sistema como um todo.

O futuro da profissão, portanto, não está em competir com a inteligência artificial, mas em utilizá-la para ampliar a inteligência humana aplicada à Engenharia.

A grande transformação que temos pela frente talvez seja justamente essa: deixar de ser uma Engenharia que predominantemente reage aos problemas para construir uma Engenharia capaz de antecipá-los e estruturar soluções.

O futuro da Engenharia não está apenas em construir melhor. Está em pensar melhor antes de construir.

E, em um mundo no qual a tecnologia acelera continuamente, nossa responsabilidade aumenta: precisamos aprender a antecipar.

Essa capacidade de pensar melhor, antecipar melhor, integrar melhor e estruturar melhor permitirá à Engenharia brasileira contribuir não apenas para obras melhores, mas para um Brasil mais desenvolvido, mais tecnológico e mais soberano.

Ícaro Moreno
2º Diretor Financeiro do CREA-RJ e Presidente Executivo da AEERJ