O painel “Um Mundo em Disputa – Como as mudanças na ordem econômica e política global afetam a indústria brasileira” reuniu o ex-embaixador Rubens Barbosa, que trouxe uma análise direta e detalhada sobre o momento geopolítico atual e suas consequências para o Brasil. Seu diagnóstico aponta para uma transformação profunda na ordem global, com efeitos imediatos sobre a indústria, o comércio exterior e a capacidade do país de se posicionar estrategicamente no mundo.
O fim da ordem liberal e a ascensão do protecionismo
Barbosa explicou que as bases da estrutura econômica criada após a Segunda Guerra Mundial estão sendo desmontadas.
Segundo ele:
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O liberalismo e a lógica de abertura econômica perderam força.
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O protecionismo voltou com intensidade, especialmente nos Estados Unidos.
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Organismos multilaterais — como a Organização Mundial do Comércio — perderam capacidade de arbitrar conflitos e estabelecer regras.
Esse movimento ocorre em um ambiente marcado por tensões crescentes entre grandes potências e pela retomada do protagonismo da Ásia. A China, em especial, “não está emergindo”, segundo Barbosa: está apenas retomando o lugar histórico que sempre ocupou na economia global.
A nova bipolaridade: tecnologia, comércio e geopolítica
O embaixador classificou o momento atual como uma espécie de “Guerra Fria 2.0”, porém com natureza distinta da disputa ideológica do século XX.
Agora, o eixo da competição é:
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domínio tecnológico,
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cadeias produtivas,
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fluxo comercial,
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e influência geopolítica.
Com guerras regionais, tensões militares e rupturas diplomáticas, o sistema internacional se tornou mais instável. Para Barbosa, muitos dos conflitos recentes — Ucrânia, Gaza, tensões com Irã, crise venezuelana — fazem parte dessa nova dinâmica global.
O Brasil diante de um mundo em transformação
Barbosa destacou que o Brasil, apesar de ser uma potência média regional, não tem percebido a velocidade das mudanças externas. Em sua visão:
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O país historicamente olha para dentro e ignora o ambiente internacional.
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Falta planejamento estratégico, tanto no setor público quanto no privado.
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Vulnerabilidades internas — como infraestrutura defasada, baixa competitividade e atraso tecnológico — limitam nossa capacidade de inserção global.
Ele reforçou que a indústria brasileira perdeu participação no PIB e enfrenta dificuldade para competir internacionalmente, o que se agrava com a baixa produtividade e o alto custo do ambiente de negócios.
Três vocações estratégicas do Brasil
Apesar dos desafios, o ex-embaixador afirmou que o Brasil possui três áreas onde poderia exercer liderança global:
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Segurança alimentar – somos um dos poucos países capazes de expandir produção em larga escala.
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Transição energética – matriz limpa, potencial renovável e capacidade de inovação.
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Meio ambiente – ativo valioso na geopolítica contemporânea.
Para ele, o país não tem transformado essas vantagens em estratégia consistente de longo prazo.
Relações internacionais fragilizadas
Barbosa também fez críticas à forma como o Brasil tem conduzido suas relações com grandes potências, especialmente os Estados Unidos.
Entre os pontos citados:
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Falta de diálogo ao longo de meses.
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Reações tardias a decisões unilaterais de Washington, que impactam setores brasileiros.
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Ausência de pragmatismo diplomático em momentos estratégicos.
Segundo ele, decisões tarifárias americanas e restrições comerciais afetam diretamente empregos e empresas brasileiras, e precisam ser tratadas com clareza e agilidade.
América do Sul: perda de protagonismo regional
O ex-embaixador apontou que a região vive forte polarização política, dificultando a cooperação.
Ele observou que:
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O Brasil perdeu parte de sua liderança natural na América do Sul.
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A integração comercial regional permanece muito baixa.
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O país não tem aproveitado oportunidades de articulação produtiva e logística.
Além disso, conflitos e instabilidades em países vizinhos — especialmente na Venezuela — têm impacto direto no Brasil, como demonstram os fluxos migratórios e os riscos de escalada militar.
Vulnerabilidades expostas e riscos para a indústria
Barbosa ressaltou que vários setores brasileiros dependem de cadeias internacionais de insumos — como diesel russo e fertilizantes — que podem ser afetadas por qualquer crise.
Ele alertou que:
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A falta de segurança jurídica,
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a instabilidade política,
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e a baixa previsibilidade econômica
são obstáculos centrais para atrair investimentos e fortalecer a indústria nacional.
Sem estabilidade, afirmou, o Brasil não consegue projetar influência externa nem aproveitar oportunidades internacionais.
A urgência de um projeto de país
O painel terminou com um apelo claro:
o Brasil precisa de um planejamento estratégico de longo prazo, acima de disputas partidárias e ciclos eleitorais.
Isso envolve:
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políticas de Estado, não apenas de governo;
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estratégia clara de inserção internacional;
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fortalecimento da competitividade;
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integração regional;
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visão pragmática nas relações externas;
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e reformas internas que reduzam vulnerabilidades.
Para Barbosa, o país está num ponto de inflexão:
ou entende rapidamente o novo cenário global e se reposiciona,
ou continuará perdendo relevância justamente em áreas onde possui maior potencial de liderança.





