Incentivar a produção em lixões poderia ser um catalisador de transformação que associaria energia limpa à promoção de inclusão social ao integrar trabalhadores e cooperativas ao mercado produtivo
O combustível do futuro já fez parte do nosso passado, mas o boicotamos. Agora, bate à nossa porta novamente, só que vestido de gala, convidando-nos para um novo futuro – tão dissonante quanto míope. A nós, resta um assento no vagão, onde ignoramos o que passou, não enxergamos o que está à nossa janela, mas seguimos apostando que a paisagem adiante será mais bela.
Em 1975, ou antes até, teve início a transformação na matriz energética brasileira. O país lançou um dos programas mais ambiciosos da sua história: o Pró-Álcool. O etanol, produzido a partir da cana-de-açúcar, era a joia da coroa, com a promessa de reduzir a dependência do petróleo importado, fortalecer a economia e criar uma alternativa renovável viável. No auge, o etanol parecia imbatível, mas sua ascensão veio acompanhada de quedas, seguindo os ciclos da economia, até os anos 2000, com o advento dos carros flex.
Desde o início, foi tratado como a pedra filosofal, o elixir da vida longa. No entanto, acabou se tornando um exemplo emblemático de como políticas públicas instáveis, tecnologia e mercado interagem, revelando os desafios da transição energética. No fim, perdeu a queda de braço para a gasolina. Agora, quase 50 anos depois, o biometano surge com um discurso semelhante – descarbonização, independência energética, inovação.
Mas será que aprendemos algo com o passado? Em 6 de janeiro deste ano, a Petrobras lançou sua primeira chamada pública para aquisição de biometano, promovendo-o como um novo protagonista da matriz energética nacional. Em um movimento coordenado com a estatal, a TBG tem se preparado para integrar o biometano em suas operações, assim como outras transportadoras, demonstrando um alinhamento entre esforços públicos e privados para fortalecer esse mercado no Brasil. Mas a viabilidade dessa transição dependerá de muito mais do que boas intenções. Com a produção e o processamento de biogás, espera-se a implementação de incentivos tarifários para subsidiar e ampliar seu uso.
Por sua vez, o biometano, em si, tem uma ampla cadeia produtiva brasileira já que é gerado pela decomposição de matéria orgânica, como resíduos agrícolas, urbanos e industriais. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a maior parte da produção de biogás no país vem do setor agropecuário e do saneamento, com destaque para aterros sanitários, que concentram a maior fatia desse mercado. Isso reforça seu potencial como solução energética e ambiental, aproveitando recursos que antes eram vistos apenas como passivos.
A lupa do contexto histórico talvez nos diga pouco, mas o etanol nos mostra o contrário. O potencial de produção é grande, assim como a dependência do gás natural importado, especialmente da Bolívia. Essa vulnerabilidade nos coloca frente a lacunas históricas que carregamos, como os lixões. Há muito se sabe que o biogás pode ser gerado em aterros irregulares, e isso, além de transformar passivos ambientais em fontes estratégicas de energia, pode ser uma solução para algumas das nossas mazelas.
Há décadas os lixões estão liberando metano, um poderoso gás de efeito estufa, em taxas mais altas do que estimado anteriormente. E essas emissões podem estar impactando mais no aquecimento global do que se imaginava, segundo diz um estudo publicado realizado em 2024, publicado na Revista Science. Mas, por aqui, o potencial impacto futuro das mudanças climáticas se encontra com o real impacto presente das nossas mazelas sociais que circundam nossos aterros irregulares.
O aumento dos lixões a céu aberto nos últimos anos, mesmo após a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), expõe uma contradição: esses locais representam um grave passivo ambiental, ao tempo que oferecem um imenso potencial energético. A chamada pública da Petrobras poderia estabelecer condições para reduzir esta lacuna social, mas não o faz.
Historicamente, os lixões não simbolizam apenas degradação ambiental, mas também vulnerabilidade social visto que abrigam famílias em condições precárias. Ao incentivar a produção nesses espaços, essa chamada pública poderia ser um catalisador de transformação que associaria energia limpa à promoção de inclusão social ao integrar trabalhadores e cooperativas ao mercado produtivo.
A Associação Brasileira do Biogás (ABiogás) afirma que o Brasil possui capacidade técnica para substituir até 70% do consumo atual de gás natural por biometano, um atalho estratégico para a estabilidade energética. Essa transição não apenas reduziria a dependência do gás importado, mas também impulsionaria setores-chave como tecnologia, infraestrutura e transporte, gerando um efeito multiplicador na economia. Além disso, pode atrair capital estrangeiro, fomentar a inovação tecnológica e consolidar compromissos concretos com pautas sociais, incluindo a erradicação da pobreza e a inclusão de grupos marginalizados.
Estamos diante de mais do que uma simples solução para a transição energética – trata-se de uma oportunidade de reconfigurar a economia brasileira com base em sustentabilidade e inclusão. Para que esse potencial seja plenamente aproveitado, é crucial acelerar a implementação de políticas públicas robustas, incentivos econômicos e investimentos em em infraestrutura. Com isso, o Brasil poderá consolidar um novo marco nas políticas sociais e ambientais. Essa visão estratégica não apenas garantirá uma transição energética justa e inclusiva, mas também abrirá caminho para uma economia de baixo carbono e maior competitividade internacional.
Transformar passivos ambientais em ativos estratégicos cria um ciclo virtuoso, conectando cadeias produtivas e gerando benefícios sociais e econômicos. Mas esbarramos novamente na ausência de infraestrutura adequada. Dado que um novo investimento será feito, por que não aprender com os erros do passado? Afinal, poucas iniciativas são tão sustentáveis quanto transformar passivos ambientais em energia verde, impulsionar uma economia de baixo carbono e trazer segurança energética.
O combustível do futuro, que já viveu em nosso passado, bate à porta do nosso presente. Mas chegou atrasado, os contratos estão em fase de assinatura.
Fonte: Valor Econômico